Ó Senhor de grande misericórdia e de suprema compaixão, Jesus Cristo, meu Deus, que pelo Teu amor infinito desceste e Te encarnaste para salvar a todos. Eu Te peço, ainda uma vez, ó Salvador, salva-me por graça. Posto que se me salvas em virtude de minhas obras, não é mais graça nem dom, antes dívida. Eis que Tu próprio disseste, ó meu Cristo, grande em ternura e inefável em misericórdia: quem crê em Mim, viverá e jamais verá a morte. Se então a fé em Ti salva os desesperados, eu creio: salva-me, pois Tu és o meu Deus e Criador. Seja-me a fé contada no lugar das obras, ó meu Deus, pois não encontrarás nada para justificar-me. Que esta minha fé possa as substituir, responder em meu favor, justificar-me e revelar-me como participar à Tua glória eterna; que Satanás não se apodere de mim e nem se vã-glorie, ó Verbo, por tomar-me de Tuas mãos e de Tua salvaguarda. Querendo eu ou não, salva-me, ó Cristo meu Salvador, apressa-Te pois estou em perigo, Tu és o meu Deus desde o ventre de minha mãe. Torna-me digno, Senhor, de agora Te amar tal como outrora amava o pecado, e que eu novamente Te sirva sem negligência como dantes a Satanás. Eu Te servirei cada vez mais, Senhor e Deus meu, Jesus Cristo, a cada dia de minha vida, agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Amém.
Fonte: http://ortodoxia-brasil.blogspot.com/2007/10/orao-ao-nosso-senhor-jesus-cristo.html
terça-feira, 5 de agosto de 2008
sábado, 2 de agosto de 2008
Adoração na igreja evangélica contemporânea
Há dois tipos de música, a boa e a ruim — seja ela erudita, MPB, sertaneja, reggae, rap, rock ou gospel. O que me surpreende é a capacidade de o mercado absorver a música ruim. Com a proliferação de compositores, intérpretes, bandas e gravadoras, o cenário evangélico não poderia ser diferente. Tem música boa, mas também tem muita música ruim.
Passamos séculos louvando a Deus com hinos históricos da Reforma. Bastava um hinário, e tínhamos músicas com letras densas, boa teologia e linha melódica harmoniosa.
Nos últimos anos surgiu o que chamamos de louvorzão. Jogamos fora os hinários, a liturgia, aposentamos o piano e o coral e introduzimos a guitarra, a bateria, o data-show, as coreografias e a aeróbica. Surgiu também a figura do dirigente de louvor, responsável por animar a congregação. Daí para a frente há muito barulho, muitas palmas, muitas mãos levantadas, muitos abraços, muitas caretas e cenho franzido. Mas a pergunta que fica é: temos adoração?
O lado positivo do louvorzão é o interesse e a integração na igreja de milhares de jovens. Trata-se de uma oportunidade única para ensinar estes jovens, através do exemplo e da Palavra, o caminho do discipulado de Cristo. Mas fica a pergunta: estarão estes jovens crescendo na santidade e no serviço?
Alguns cultos se tornaram verdadeiras produções dignas da Broadway. Músicos profissionais, cenários, bailarinos e iluminação. Mas fica uma pergunta: toda esta parafernália cênica tem levado o povo de Deus a uma genuína adoração?
A história da Igreja é rica em manifestações artísticas. Ao longo do tempo o louvor foi expresso através de várias expressões musicais. O canto gregoriano, o barroco, os hinos da Reforma, o negro espiritual e os cânticos contemporâneos deixaram sua contribuição à boa música ao longo destes últimos séculos.
Trata-se, portanto, de um equívoco jogar fora toda a herança histórica e achar que esta geração descobriu a forma certa de louvar. Se olharmos do ponto de vista musical veremos que a história nos legou uma herança preciosa. Na cultura gospel do louvorzão tem muita música ruim, muita letra questionável e muito dirigente de louvor que mais parece um animador de auditório.
A igreja pode ser a ponte entre as gerações, entre o antigo e o novo e integrar na adoração tudo o que há de bom na sua herança histórica. Tem muita gente cansada do louvorzão barulhento de letras rasas, de bandas que tocam no último volume, de coreografias esvoaçantes e de ordens do dirigente para abraçar o irmão da frente, de trás e do lado dizendo que o amamos. É constrangedor abraçar alguém e dizer que o amamos quando nem sequer o conhecemos.
A igreja perde quando a ênfase do louvor se desloca da congregação para o palco. Com raras exceções a música é ruim, a letra não tem nada a ver com a realidade do cotidiano ou a teologia reformada e a performance no palco é apelativa.
A igreja perde quando se torna parecida com um programa de auditório e já não cultiva a boa música com cordas, sopros, bons arranjos, corais, quartetos. E perde muito mais quando a adoração se torna um evento estimulado sensorialmente e não uma melodia que emerge de um coração quebrantado e temente a Deus. Adoração é sempre uma resposta humilde, alegre, reverente àquilo que Deus é e faz. Adoramos porque algo aconteceu, algo nos foi revelado, e não o contrário, como pensam alguns, que recebemos a revelação e as coisas acontecem porque adoramos.
A igreja perde quando não há reverência ou temor. O que resta é euforia, excitação e sensações prazerosas. O que é bom em si mesmo, mas não é necessariamente adoração.
É um equívoco pensar que Deus se impressiona com nossos cultos de domingo. Antes, ele acolhe muito mais nossos gestos simples do cotidiano, fruto de um coração humilde e quebrantado, que busca se desprender de ambições e serve ao próximo com alegria. Adoração não é um evento domingueiro bem produzido, mas um estilo de vida que glorifica ao Senhor.
Durante séculos a arquitetura das igrejas e das catedrais destinou o balcão posterior ao coro, ao órgão e à orquestra. Na igreja da Reforma os músicos e o coro se posicionavam na parte da frente da nave, mas sempre ao lado. Mesmo o púlpito não estava no centro, mas ao lado. No centro havia, quando muito, alguns símbolos da fé, que ajudam a despertar a consciência para a experiência do sagrado, com destaque para a mesa do Senhor. A congregação ficava em face ao altar de Deus, sem que nada se interpusesse entre a Santa Presença e a congregação. Este lugar só pode ser ocupado por Jesus Cristo. Ele é o único mediador, ele é o único que pode dirigir o louvor.
Hoje o que se vê é o apóstolo, o bispo, o pastor, o dirigente de louvor e a banda ocupando este lugar, nos levando de volta à Antiga Aliança, quando sacerdotes e levitas eram mediadores entre Deus e os homens. A conseqüência é uma geração de crentes que dependem de homens, coreografias e data-shows para adorar e para ouvir a voz de Deus.
O verdadeiro pastoreio consiste em ajudar homens e mulheres a dependerem do Espírito Santo para seguirem a Cristo, que os leva ao seio do Pai. Ajudar homens e mulheres a crescerem e amadurecerem na fé, na esperança e no amor, integrando adoração, oração e leitura das Escrituras no seu cotidiano.
A contextualização se tornou uma armadilha na qual a igreja caiu. Na tentativa de se identificar com o mundo ela ficou cada vez mais parecida com ele. A cultura gospel é autocentrada, materialista, acha-se dona da verdade, tornou-se uma religião que nos faz prosperar, que não nos pede para renunciar a nada e que resolve todos os nossos problemas. Há um abismo colossal entre a cultura gospel e o evangelho de Jesus Cristo, que nos chama a amar sacrificalmente o nosso próximo, a cultivar um estilo de vida simples, a integrar o sofrimento na experiência existencial e a ter a humildade de ser um eterno aprendiz.
Estas reflexões já estavam fervilhando no meu coração há algum tempo. Pensei que estas coisas só aconteciam em certas igrejas, mas o que me motivou mesmo a colocá-las no papel foi ter participado de um culto numa Igreja Batista da Convenção.
• Autor: Osmar Ludovico da Silva (pastor da Igreja Evangélica Comunidade de Cristo em Cabedelo, PB), ministra cursos de espiritualidade cristã, formação de líderes e restauração para missionários.
Passamos séculos louvando a Deus com hinos históricos da Reforma. Bastava um hinário, e tínhamos músicas com letras densas, boa teologia e linha melódica harmoniosa.
Nos últimos anos surgiu o que chamamos de louvorzão. Jogamos fora os hinários, a liturgia, aposentamos o piano e o coral e introduzimos a guitarra, a bateria, o data-show, as coreografias e a aeróbica. Surgiu também a figura do dirigente de louvor, responsável por animar a congregação. Daí para a frente há muito barulho, muitas palmas, muitas mãos levantadas, muitos abraços, muitas caretas e cenho franzido. Mas a pergunta que fica é: temos adoração?
O lado positivo do louvorzão é o interesse e a integração na igreja de milhares de jovens. Trata-se de uma oportunidade única para ensinar estes jovens, através do exemplo e da Palavra, o caminho do discipulado de Cristo. Mas fica a pergunta: estarão estes jovens crescendo na santidade e no serviço?
Alguns cultos se tornaram verdadeiras produções dignas da Broadway. Músicos profissionais, cenários, bailarinos e iluminação. Mas fica uma pergunta: toda esta parafernália cênica tem levado o povo de Deus a uma genuína adoração?
A história da Igreja é rica em manifestações artísticas. Ao longo do tempo o louvor foi expresso através de várias expressões musicais. O canto gregoriano, o barroco, os hinos da Reforma, o negro espiritual e os cânticos contemporâneos deixaram sua contribuição à boa música ao longo destes últimos séculos.
Trata-se, portanto, de um equívoco jogar fora toda a herança histórica e achar que esta geração descobriu a forma certa de louvar. Se olharmos do ponto de vista musical veremos que a história nos legou uma herança preciosa. Na cultura gospel do louvorzão tem muita música ruim, muita letra questionável e muito dirigente de louvor que mais parece um animador de auditório.
A igreja pode ser a ponte entre as gerações, entre o antigo e o novo e integrar na adoração tudo o que há de bom na sua herança histórica. Tem muita gente cansada do louvorzão barulhento de letras rasas, de bandas que tocam no último volume, de coreografias esvoaçantes e de ordens do dirigente para abraçar o irmão da frente, de trás e do lado dizendo que o amamos. É constrangedor abraçar alguém e dizer que o amamos quando nem sequer o conhecemos.
A igreja perde quando a ênfase do louvor se desloca da congregação para o palco. Com raras exceções a música é ruim, a letra não tem nada a ver com a realidade do cotidiano ou a teologia reformada e a performance no palco é apelativa.
A igreja perde quando se torna parecida com um programa de auditório e já não cultiva a boa música com cordas, sopros, bons arranjos, corais, quartetos. E perde muito mais quando a adoração se torna um evento estimulado sensorialmente e não uma melodia que emerge de um coração quebrantado e temente a Deus. Adoração é sempre uma resposta humilde, alegre, reverente àquilo que Deus é e faz. Adoramos porque algo aconteceu, algo nos foi revelado, e não o contrário, como pensam alguns, que recebemos a revelação e as coisas acontecem porque adoramos.
A igreja perde quando não há reverência ou temor. O que resta é euforia, excitação e sensações prazerosas. O que é bom em si mesmo, mas não é necessariamente adoração.
É um equívoco pensar que Deus se impressiona com nossos cultos de domingo. Antes, ele acolhe muito mais nossos gestos simples do cotidiano, fruto de um coração humilde e quebrantado, que busca se desprender de ambições e serve ao próximo com alegria. Adoração não é um evento domingueiro bem produzido, mas um estilo de vida que glorifica ao Senhor.
Durante séculos a arquitetura das igrejas e das catedrais destinou o balcão posterior ao coro, ao órgão e à orquestra. Na igreja da Reforma os músicos e o coro se posicionavam na parte da frente da nave, mas sempre ao lado. Mesmo o púlpito não estava no centro, mas ao lado. No centro havia, quando muito, alguns símbolos da fé, que ajudam a despertar a consciência para a experiência do sagrado, com destaque para a mesa do Senhor. A congregação ficava em face ao altar de Deus, sem que nada se interpusesse entre a Santa Presença e a congregação. Este lugar só pode ser ocupado por Jesus Cristo. Ele é o único mediador, ele é o único que pode dirigir o louvor.
Hoje o que se vê é o apóstolo, o bispo, o pastor, o dirigente de louvor e a banda ocupando este lugar, nos levando de volta à Antiga Aliança, quando sacerdotes e levitas eram mediadores entre Deus e os homens. A conseqüência é uma geração de crentes que dependem de homens, coreografias e data-shows para adorar e para ouvir a voz de Deus.
O verdadeiro pastoreio consiste em ajudar homens e mulheres a dependerem do Espírito Santo para seguirem a Cristo, que os leva ao seio do Pai. Ajudar homens e mulheres a crescerem e amadurecerem na fé, na esperança e no amor, integrando adoração, oração e leitura das Escrituras no seu cotidiano.
A contextualização se tornou uma armadilha na qual a igreja caiu. Na tentativa de se identificar com o mundo ela ficou cada vez mais parecida com ele. A cultura gospel é autocentrada, materialista, acha-se dona da verdade, tornou-se uma religião que nos faz prosperar, que não nos pede para renunciar a nada e que resolve todos os nossos problemas. Há um abismo colossal entre a cultura gospel e o evangelho de Jesus Cristo, que nos chama a amar sacrificalmente o nosso próximo, a cultivar um estilo de vida simples, a integrar o sofrimento na experiência existencial e a ter a humildade de ser um eterno aprendiz.
Estas reflexões já estavam fervilhando no meu coração há algum tempo. Pensei que estas coisas só aconteciam em certas igrejas, mas o que me motivou mesmo a colocá-las no papel foi ter participado de um culto numa Igreja Batista da Convenção.
• Autor: Osmar Ludovico da Silva (pastor da Igreja Evangélica Comunidade de Cristo em Cabedelo, PB), ministra cursos de espiritualidade cristã, formação de líderes e restauração para missionários.
O Anglicanismo e sua Liturgia
A beleza e a ordem nascem do coração de Deus, que concede ao ser humano a inata sensibilidade estética, que pode ser aperfeiçoada com a educação. Daí o mandato cultural à humanidade incluir o desenvolvimento da Arte, em suas diversas expressões (plásticas, dramáticas, musicais etc.). A Arte Sacra tem sido aspecto central das manifestações culturais em todas as épocas. Ela destina-se a glorificar a Deus e aproximar o ser humano do Sagrado.
Deus, nosso Pai, na Primeira Aliança, comunicou todos os detalhes da construção do Santuário: arquitetura, decoração, móveis e utensílios, e as próprias vestes dos sacerdotes. O templo, construído por Salomão, além da sua funcionalidade para o Culto e o Sacrifício, era marcado por sua beleza, dedicado a Deus, o Sumo Belo, e o Criador da Beleza. A feiúra, a inestética, o não-belo, em todas as suas expressões, é um resultado do pecado, e a plena beleza, como no Jardim do Éden, será restaurada, após o Juízo Final, na Nova Jerusalém.
A Arte Sacra, elaborada por corações contritos, é forma de adoração: os templos, as cerimônias, os ritos ali realizados são Liturgias (no original leitourgia = trabalho do povo). Todas as igrejas, de todas as correntes, são litúrgicas, valorizando ou não a História, com maior ou menor elaboração, conteúdo, nível estético ou doutrinário. As chamadas “liturgias improvisadas” são tão cristalizadas quanto qualquer outra, pois se pode prever cada passo do “improviso” .
Apesar das perseguições do Império Romano, a Igreja Primitiva adotou símbolos, como a cruz e o peixe, e elaborou formas de culto, especialmente para a celebração dominical do Sacramento da Ceia do Senhor. Pode-se verificar esse fato na Carta de Clemente Romano aos Coríntios, ainda no final do primeiro século, e, no segundo século, em textos como o Didaquê, a Carta de Plínio ao Imperador Trajano, e o texto de Justino, o Mártir, sobre o Culto Dominical. No terceiro século, os textos de Hipólito e Cirilo já explicitam Ritos Eucarísticos plenamente elaborados, com as diversas partes que adotamos hoje. No Oriente, as Igrejas Pré-Calcedônias vão adotar o Rito atribuído a Tiago, o irmão do Senhor, e as Igrejas Bizantinas, o rito atribuído a João Crisóstomo. No Ocidente, durante a Idade Média, vão surgir, influenciados pelas culturas regionais, dentre outros, os ritos Romano, Galicano e de Sarum (este na Inglaterra).
Com a Reforma Protestante, foi no Luteranismo onde se expressou uma maior preocupação estética, com a preservação dos antigos templos, e a reelaboração de Símbolos, Cerimônias e Ritos, mantidos em sua beleza histórica, porém expurgados dos desvios doutrinários surgidos na Igreja de Roma no período anterior. A posição Luterana foi: “Devemos manter tudo aquilo que a Igreja Cristã elaborou, e que não se choque com a Palavra de Deus” . O Anglicanismo – como parte da mesma Primeira Reforma – seguiu a orientação Luterana. Isso contrastava com radicalismos encontrados entre Calvinistas: o culto como “quatro paredes caiadas e um sermão” , ou entre setores Anabatistas, que, adotando a incorreta teoria da “apostasia geral da Igreja” , negava toda criação de quinze séculos, e pretendia uma ahistórica reconstituição idealizada da Igreja Primitiva. Lutero sai do seu exílio, onde estava traduzindo a Bíblia, para combater a Iconoclastia (destruição das obras de Arte Sacra) empreendida pelo extremista Carlstad . O radicalismo iconoclasta surge sempre da generalizada identificação entre Arte Sacra e Idolatria, que não tem base nem no Judaísmo, nem no Cristianismo, mas que vai se instalar no Islamismo, e em setores do Protestantismo posterior.
Apesar da importância do trabalho teológico de um Richard Hooker , e do conteúdo doutrinário dos XXXIX Artigos de Religião, o Anglicanismo, pelo gênio do Arcebispo Thomas Cranmer , coloca nossos princípios doutrinários na Liturgia popularizada do Livro de Oração Comum (LOC), dando lugar à compreensão, entre nós, do “Lex Credendi, Lex Orandi” , confessamos aquilo que oramos. O Livro de Oração Comum teve várias edições, refletindo um período de instabilidade política da Inglaterra (com governos protestantes – anglicanos e presbiterianos – e católicos romanos): 1549, 1552, 1559, 1604, e, finalmente, 1662, adotada desde então. O objetivo do Livro de Oração Comum foi sistematizar e simplificar um conjunto de liturgias históricas reformadas no vernáculo, colocada nas mãos do clero e do povo.
O Livro de Oração Comum de 1662 foi o único adotado pela Igreja da Inglaterra dos séculos XVI a XIX, em todo o mundo, com profundas influências em outras denominações. Com o surgimento da Comunhão Anglicana, no século XIX, cada Província viria a adotar sua própria versão do LOC, além de ritos complementares ou alternativos, mantidos a estrutura e a doutrina originais. O Conselho Consultivo Anglicano (ACC) tem orientado como princípios para essas reelaborações: a) a fidelidade às Sagradas Escrituras; b) a flexibilidade pastoral; c) a Inculturação; d) a Inclusividade/Ecumenicidade
No Brasil, um excelente trabalho foi empreendido por nosso segundo Bispo, Dom Thomas , resultando no LOC brasileiro de 1930, contendo: Calendário e Lições para o Ano Cristão, Batismo, Matrimônio, Ofícios de Sepultura, Oração Matutina, Oração Vespertina, Ceia do Senhor, Saltério, Ordinal (Ordenações de Diáconos, Presbíteros e Bispos), Catecismo, XXXIX Artigos de Religião, fórmulas para os cultos domésticos e orações especiais para festas (como a Quaresma) ou ocasiões (como visita a parturientes ou enfermos). Ou seja, um LOC completo, que foi respeitado e amplamente popularizado.
Do Prefácio daquela edição, lemos: “Da Igreja da Inglaterra recebeu a nossa Igreja-Mãe o bom depósito da Fé uma vez confiada aos santos” , e dessa origem remota, que vai entroncar nos tempos apostólicos, é que, através de quase vinte séculos de milícia, o devocionário cristão chegou até nós como um tesouro de incalculável valia. Desse precioso legado esta Igreja herda e seleciona o seu ritual, escoimada a velha liturgia de tudo aquilo que possa colidir com a Palavra de Deus, ou impedir a Igreja de correr, no grande estádio da vida moderna, a carreira que lhe está proposta perante uma tão grande nuvem de testemunhas. E, ainda: “Exuberante prova do espírito construtivo e conservador desta Igreja é fornecida por este Livro nas belas instruções que ministra sobre a Doutrina da Santíssima Trindade, a salvação pela Fé em Cristo, o ensino bíblico sobre a Bem-Aventurada Virgem Maria e os Santos Apóstolos e Mártires, a confissão a Deus, a necessidade de arrependimento, os sacramentos administrados pela forma prescrita nas Santas Escrituras, e muitos outros pontos interessantíssimos da Fé Cristã, todos concorrentes à edificação das almas, sem o sacrifício da consciência, essa luz preciosa e brilhantíssima com a qual Deus distinguiu a criatura humana” .
Necessidade de atualização lingüística, e mudança de linha teológica (do evangelicalismo para o anglo-catolicismo, e, deste, para o liberal-catolicismo) levaram a Província do Brasil a abandonar o LOC de 1930 e publicar uma nova versão profundamente mutilada e limitada em 1984, ausente a maioria dos itens de um LOC normal. O Anglicanismo no Sul tendeu a um ritualismo frio, pobre em cerimônias, enquanto no Nordeste tendeu à direção contrária, com cerimônias imitativas de outras ondas denominacionais, empobrecendo o Rito.
O Brasil foi marcado pela proibição de sinais externos de arte sacra não Católica Romana e de ritos apenas em línguas estrangeiras para protestantes imigrantes, durante a Colônia e o Império, pela falta de recursos das igrejas para investimento na arte de adoração, pelo limitado nível cultural dos fiéis, que atingia a sensibilidade estética, e por um antagonismo radical anti-católico romano, que não soube distinguir o essencial do acidental, seguindo antes o extremismo Anabatista do que o equilíbrio Luterano e Anglicano. Ultimamente, com os cultos midiáticos, centrados nos pastores e cantores artistas, fartos de “animação” e rasos de conteúdo, sem ordem, com a “corinhologia” pauperizada em teologia e no vernáculo, temos apenas agravado a crise Litúrgica, que empobrece o nível do povo de Deus.
A tradição Anglicana tem, historicamente, se preocupado com a beleza arquitetônica e a decoração dos nossos templos, com o lugar apropriado para a cruz, o altar/santa mesa, o atril, o púlpito, os assentos laterais para clero e coro, as vestes, a ordem do processional precedida pelo cruciferário, a dignidade, solenidade e reverência no culto, com uma liturgia participativa e dialogal, entre celebrantes e povo. Essa tradição se encontra em choque com o “informal” (?) espírito Pós-Moderno e com a hegemonia anabatista-pós-pentecostal do culto-espetáculo.
Há de se fazer uma diferenciação entre os Símbolos (presentes nos vitrais, azulejos, mosaicos, móveis e utensílios, como a cruz, o cálice e a patena, as cenas bíblicas) e as Cerimônias, que é o “como” da condução dos Cultos, com seus gestos, suas orações extemporâneas, ao tipo de cântico e de presença de grupos de música ou de dança, o uso ou não de velas e incenso, o persignar-se (sinal da cruz), que, de acordo com as várias correntes litúrgicas dentro de Anglicanismo, e as preferências pessoais e comunitárias, são legítimos em sua diversidade, dos Ritos, que são as palavras textuais, com conteúdo doutrinário, e que não são descartáveis ou selecionáveis, mas de todos os celebrantes se requer. Por outro lado, as Rubricas do LOC, sobre procedimentos e o que é reservado para o Bispo, os Presbíteros e os Diáconos, em nossa Igreja , têm força de Lei.
Na situação de excepcionalidade em que se encontra a nossa Diocese, o LOC da IEAB, o Livro de Ritos Opcionais da DAR e o novo LOC editado por irmãos continuantes são fontes para a nossa prática litúrgica. É dever do Clero conhecer, amar e compartilhar, com fidelidade e criatividade, da nossa Liturgia junto ao nosso Laicato, dando uma contribuição (e não sendo cooptados) para superarmos a pobreza, a superficialidade e a anarquia litúrgica reinante no Cristianismo brasileiro reformado em nossos dias.
(Compilação: Revmo. Dom Robinson Cavalcanti )
Deus, nosso Pai, na Primeira Aliança, comunicou todos os detalhes da construção do Santuário: arquitetura, decoração, móveis e utensílios, e as próprias vestes dos sacerdotes. O templo, construído por Salomão, além da sua funcionalidade para o Culto e o Sacrifício, era marcado por sua beleza, dedicado a Deus, o Sumo Belo, e o Criador da Beleza. A feiúra, a inestética, o não-belo, em todas as suas expressões, é um resultado do pecado, e a plena beleza, como no Jardim do Éden, será restaurada, após o Juízo Final, na Nova Jerusalém.
A Arte Sacra, elaborada por corações contritos, é forma de adoração: os templos, as cerimônias, os ritos ali realizados são Liturgias (no original leitourgia = trabalho do povo). Todas as igrejas, de todas as correntes, são litúrgicas, valorizando ou não a História, com maior ou menor elaboração, conteúdo, nível estético ou doutrinário. As chamadas “liturgias improvisadas” são tão cristalizadas quanto qualquer outra, pois se pode prever cada passo do “improviso” .
Apesar das perseguições do Império Romano, a Igreja Primitiva adotou símbolos, como a cruz e o peixe, e elaborou formas de culto, especialmente para a celebração dominical do Sacramento da Ceia do Senhor. Pode-se verificar esse fato na Carta de Clemente Romano aos Coríntios, ainda no final do primeiro século, e, no segundo século, em textos como o Didaquê, a Carta de Plínio ao Imperador Trajano, e o texto de Justino, o Mártir, sobre o Culto Dominical. No terceiro século, os textos de Hipólito e Cirilo já explicitam Ritos Eucarísticos plenamente elaborados, com as diversas partes que adotamos hoje. No Oriente, as Igrejas Pré-Calcedônias vão adotar o Rito atribuído a Tiago, o irmão do Senhor, e as Igrejas Bizantinas, o rito atribuído a João Crisóstomo. No Ocidente, durante a Idade Média, vão surgir, influenciados pelas culturas regionais, dentre outros, os ritos Romano, Galicano e de Sarum (este na Inglaterra).
Com a Reforma Protestante, foi no Luteranismo onde se expressou uma maior preocupação estética, com a preservação dos antigos templos, e a reelaboração de Símbolos, Cerimônias e Ritos, mantidos em sua beleza histórica, porém expurgados dos desvios doutrinários surgidos na Igreja de Roma no período anterior. A posição Luterana foi: “Devemos manter tudo aquilo que a Igreja Cristã elaborou, e que não se choque com a Palavra de Deus” . O Anglicanismo – como parte da mesma Primeira Reforma – seguiu a orientação Luterana. Isso contrastava com radicalismos encontrados entre Calvinistas: o culto como “quatro paredes caiadas e um sermão” , ou entre setores Anabatistas, que, adotando a incorreta teoria da “apostasia geral da Igreja” , negava toda criação de quinze séculos, e pretendia uma ahistórica reconstituição idealizada da Igreja Primitiva. Lutero sai do seu exílio, onde estava traduzindo a Bíblia, para combater a Iconoclastia (destruição das obras de Arte Sacra) empreendida pelo extremista Carlstad . O radicalismo iconoclasta surge sempre da generalizada identificação entre Arte Sacra e Idolatria, que não tem base nem no Judaísmo, nem no Cristianismo, mas que vai se instalar no Islamismo, e em setores do Protestantismo posterior.
Apesar da importância do trabalho teológico de um Richard Hooker , e do conteúdo doutrinário dos XXXIX Artigos de Religião, o Anglicanismo, pelo gênio do Arcebispo Thomas Cranmer , coloca nossos princípios doutrinários na Liturgia popularizada do Livro de Oração Comum (LOC), dando lugar à compreensão, entre nós, do “Lex Credendi, Lex Orandi” , confessamos aquilo que oramos. O Livro de Oração Comum teve várias edições, refletindo um período de instabilidade política da Inglaterra (com governos protestantes – anglicanos e presbiterianos – e católicos romanos): 1549, 1552, 1559, 1604, e, finalmente, 1662, adotada desde então. O objetivo do Livro de Oração Comum foi sistematizar e simplificar um conjunto de liturgias históricas reformadas no vernáculo, colocada nas mãos do clero e do povo.
O Livro de Oração Comum de 1662 foi o único adotado pela Igreja da Inglaterra dos séculos XVI a XIX, em todo o mundo, com profundas influências em outras denominações. Com o surgimento da Comunhão Anglicana, no século XIX, cada Província viria a adotar sua própria versão do LOC, além de ritos complementares ou alternativos, mantidos a estrutura e a doutrina originais. O Conselho Consultivo Anglicano (ACC) tem orientado como princípios para essas reelaborações: a) a fidelidade às Sagradas Escrituras; b) a flexibilidade pastoral; c) a Inculturação; d) a Inclusividade/Ecumenicidade
No Brasil, um excelente trabalho foi empreendido por nosso segundo Bispo, Dom Thomas , resultando no LOC brasileiro de 1930, contendo: Calendário e Lições para o Ano Cristão, Batismo, Matrimônio, Ofícios de Sepultura, Oração Matutina, Oração Vespertina, Ceia do Senhor, Saltério, Ordinal (Ordenações de Diáconos, Presbíteros e Bispos), Catecismo, XXXIX Artigos de Religião, fórmulas para os cultos domésticos e orações especiais para festas (como a Quaresma) ou ocasiões (como visita a parturientes ou enfermos). Ou seja, um LOC completo, que foi respeitado e amplamente popularizado.
Do Prefácio daquela edição, lemos: “Da Igreja da Inglaterra recebeu a nossa Igreja-Mãe o bom depósito da Fé uma vez confiada aos santos” , e dessa origem remota, que vai entroncar nos tempos apostólicos, é que, através de quase vinte séculos de milícia, o devocionário cristão chegou até nós como um tesouro de incalculável valia. Desse precioso legado esta Igreja herda e seleciona o seu ritual, escoimada a velha liturgia de tudo aquilo que possa colidir com a Palavra de Deus, ou impedir a Igreja de correr, no grande estádio da vida moderna, a carreira que lhe está proposta perante uma tão grande nuvem de testemunhas. E, ainda: “Exuberante prova do espírito construtivo e conservador desta Igreja é fornecida por este Livro nas belas instruções que ministra sobre a Doutrina da Santíssima Trindade, a salvação pela Fé em Cristo, o ensino bíblico sobre a Bem-Aventurada Virgem Maria e os Santos Apóstolos e Mártires, a confissão a Deus, a necessidade de arrependimento, os sacramentos administrados pela forma prescrita nas Santas Escrituras, e muitos outros pontos interessantíssimos da Fé Cristã, todos concorrentes à edificação das almas, sem o sacrifício da consciência, essa luz preciosa e brilhantíssima com a qual Deus distinguiu a criatura humana” .
Necessidade de atualização lingüística, e mudança de linha teológica (do evangelicalismo para o anglo-catolicismo, e, deste, para o liberal-catolicismo) levaram a Província do Brasil a abandonar o LOC de 1930 e publicar uma nova versão profundamente mutilada e limitada em 1984, ausente a maioria dos itens de um LOC normal. O Anglicanismo no Sul tendeu a um ritualismo frio, pobre em cerimônias, enquanto no Nordeste tendeu à direção contrária, com cerimônias imitativas de outras ondas denominacionais, empobrecendo o Rito.
O Brasil foi marcado pela proibição de sinais externos de arte sacra não Católica Romana e de ritos apenas em línguas estrangeiras para protestantes imigrantes, durante a Colônia e o Império, pela falta de recursos das igrejas para investimento na arte de adoração, pelo limitado nível cultural dos fiéis, que atingia a sensibilidade estética, e por um antagonismo radical anti-católico romano, que não soube distinguir o essencial do acidental, seguindo antes o extremismo Anabatista do que o equilíbrio Luterano e Anglicano. Ultimamente, com os cultos midiáticos, centrados nos pastores e cantores artistas, fartos de “animação” e rasos de conteúdo, sem ordem, com a “corinhologia” pauperizada em teologia e no vernáculo, temos apenas agravado a crise Litúrgica, que empobrece o nível do povo de Deus.
A tradição Anglicana tem, historicamente, se preocupado com a beleza arquitetônica e a decoração dos nossos templos, com o lugar apropriado para a cruz, o altar/santa mesa, o atril, o púlpito, os assentos laterais para clero e coro, as vestes, a ordem do processional precedida pelo cruciferário, a dignidade, solenidade e reverência no culto, com uma liturgia participativa e dialogal, entre celebrantes e povo. Essa tradição se encontra em choque com o “informal” (?) espírito Pós-Moderno e com a hegemonia anabatista-pós-pentecostal do culto-espetáculo.
Há de se fazer uma diferenciação entre os Símbolos (presentes nos vitrais, azulejos, mosaicos, móveis e utensílios, como a cruz, o cálice e a patena, as cenas bíblicas) e as Cerimônias, que é o “como” da condução dos Cultos, com seus gestos, suas orações extemporâneas, ao tipo de cântico e de presença de grupos de música ou de dança, o uso ou não de velas e incenso, o persignar-se (sinal da cruz), que, de acordo com as várias correntes litúrgicas dentro de Anglicanismo, e as preferências pessoais e comunitárias, são legítimos em sua diversidade, dos Ritos, que são as palavras textuais, com conteúdo doutrinário, e que não são descartáveis ou selecionáveis, mas de todos os celebrantes se requer. Por outro lado, as Rubricas do LOC, sobre procedimentos e o que é reservado para o Bispo, os Presbíteros e os Diáconos, em nossa Igreja , têm força de Lei.
Na situação de excepcionalidade em que se encontra a nossa Diocese, o LOC da IEAB, o Livro de Ritos Opcionais da DAR e o novo LOC editado por irmãos continuantes são fontes para a nossa prática litúrgica. É dever do Clero conhecer, amar e compartilhar, com fidelidade e criatividade, da nossa Liturgia junto ao nosso Laicato, dando uma contribuição (e não sendo cooptados) para superarmos a pobreza, a superficialidade e a anarquia litúrgica reinante no Cristianismo brasileiro reformado em nossos dias.
(Compilação: Revmo. Dom Robinson Cavalcanti )
Os Anglicanos e os Sacramentos
O terceiro item do Quadrilátero de Lambeth , dentre as crenças doutrinárias centrais para os Anglicanos, se encontra: “Os dois Sacramentos ordenados por Cristo mesmo – Batismo e Ceia do Senhor – ministrados com o uso das inexoráveis palavras de Cristo na instituição e dos elementos ordenados por Ele”.
Um Sacramento já foi definido como: “Um sinal externo e visível de uma graça interna e espiritual, que se nos concede, instituído pelo próprio Cristo, como meio de recebermos essa graça, e como penhor que nos assegura dela”.
O Sacramento deve ter sido instituído pelo próprio Cristo – conforme relato dos Evangelhos – cujas palavras são repetidas pelos celebrantes, deve conter elementos externos, visíveis, da natureza (água, pão, vinho), e deve concorrer para alimentar os fiéis, que os recebem pela fé, com a graça de Deus. No Catecismo de um dos Livros de Oração Comum (LOC) de uma de nossas Províncias Anglicanas, Graça é entendida como “o favor de Deus para conosco”.
Em nosso Documento Doutrinário Anglicano da época da Reforma Protestante, do século XVI, os “XXXIX Artigos de Religião” , em seu artigo XXV – Dos Sacramentos, lemos a seguinte afirmativa: “Os Sacramentos instituídos por Cristo não são unicamente designações ou indícios da profissão dos Cristãos, mas antes testemunhos certos e firmes, e sinais eficazes da graça, e da boa vontade de Deus para conosco, pelos quais Ele opera invisivelmente em nós, e não só vivifica, mas, também, fortalece e confirma a nossa fé Nele. São dois os Sacramentos instituídos por Cristo nosso Senhor no Evangelho, isto é, o Batismo e a Ceia do Senhor”.
Aquele importante documento nega o status de “sacramento” a outros ritos não instituídos por Cristo, mas sim pela Igreja, ao longo dos séculos, por mais benéficos que sejam: Confirmação, Penitência, Ordens, Matrimônio e Unção dos Enfermos. Faltar-lhe-ia os elementos essenciais para tanto. Posteriormente, passaram a ser denominados no Anglicanismo de “Ritos Sacramentais” , ou de “Sacramentos Menores” . Enquanto os Sacramentos estão na economia da salvação, os ritos sacramentais estariam na economia da santificação.
O Artigo XXVII – Do Batismo, do Documento acima citado, nos ensina que: “O Batismo não é um sinal de profissão e marca de diferença, com que se distinguem os Cristãos dos que o não são, mas também um sinal de regeneração ou Nascimento novo, pelo qual, como por instrumentos, os que recebem o Batismo devidamente, são enxertados na Igreja; as promessas da remissão dos pecados, e da nossa adoção como filhos de Deus pelo Espírito Santo, são visivelmente marcadas e seladas, a fé é confirmada, e a graça aumentada por virtude da oração de Deus. O Batismo das crianças deve conservar-se de qualquer modo na Igreja como sumamente como à instituição de Cristo”.
O Batismo tem sido entendido como “o ato de imergir, infundir ou aspergir, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, sobre o convertido ou criança “filha da promessa”, ou seja, de pais e/ou avós já crentes” . Ambos os batismos, seguindo, na Nova Aliança, a tradição da Primeira Aliança (circuncisão e batismo de prosélitos) na Igreja Primitiva, segundo farta e confiável documentação do período dos Pais Apostólicos (segundo século). O convertido professa a sua fé, e os filhos da promessa ( “para tu e os de tua descendência” ) recebem a semente do Evangelho, que uma vez devidamente regada pela família da carne e pela família da fé, haverá de germinar, como tão bem nos ensina Calvino.
Como a quantidade de água, além de não-essencial, foi diversa nos primórdios do Cristianismo, os Anglicanos não somente batizam adultos e crianças, mas também o fazem por imersão (em água corrente ou não) e por infusão ou aspersão na pia batismal, com o uso das palavras da instituição por nosso Senhor Jesus Cristo. Em todos os casos deve-se preparar as pessoas e chamar a atenção para a importância desse rito de iniciação cristã.
O segundo Sacramento é tratado no Artigo XXVIII – Da Ceia do Senhor: “A Ceia do Senhor não é só um sinal de mútuo amor que os cristãos devem ter uns para com os outros; mas antes é um Sacramento da nossa Redenção pela morte de Cristo, de sorte que para os que devida e dignamente, e com fé o recebem, o pão que partimos é a participação do Corpo de Cristo; e de igual modo o Cálice de bênção é uma participação do Sangue de Cristo” . Nossa posição rejeita a doutrina da Transubstanciação da Igreja Romana e da Consubstanciação da Igreja Luterana, bem como o do mero memorial defendido pelos Anabatistas. Afirma esse Artigo: “O Corpo de Cristo é dado, tomado, e comido na Ceia, somente dum modo celeste e espiritual. E o meio pelo qual o Corpo de Cristo é recebido e comido na Ceia é a Fé” . Daí os Anglicanos afirmarem, mas não definirem racionalmente (pois sacramento é mistério, apreendido pela fé) o sentido da “Presença Real” de Cristo, que é espiritual e não material, estando presente não nos elementos, isoladamente, mas no Sacramento: rito, palavras solenes, elementos, cristãos com fé.
Os Artigos de Religião afirmam a necessidade de, em obediência ao que está prescrito pelas Escrituras, celebrarmos a Ceia com ambos os elementos: o pão e o vinho, nem só o pão (Igreja de Roma), nem pão e suco de uva (prática que apareceu na Igreja Metodista dos EUA no século XIX), são condenados os que participam indignamente ou sem fé, e afirma-se que a fé e o caráter do celebrante não afetam o Sacramento devidamente administrado e devidamente recebido.
Como afirmação do Corpo Místico de Cristo, e de que nós, os Anglicanos, somos uma parcela provisória e reformada desse Corpo, praticamos a chamada “Ceia Aberta” (a Mesa é do Senhor e não da Igreja Anglicana) a todas as pessoas batizadas, que confessem Cristo como Senhor e Salvador e estejam em paz com Deus e em comunhão com as suas igrejas.
A Ceia do Senhor, ou Eucaristia ( “Ação de Graças” ) era celebrada dominicalmente pela Igreja dos primeiros séculos, como afirmação da redenção e da ressurreição. Fórmulas e ritos foram sendo elaborados, sendo a mais antiga (adotada pela Igreja Ortodoxa Siriana) atribuída a Tiago, irmão do Senhor. As tradições da Igreja Celta e da Igreja Romana foram profundamente afetadas pela Reforma Luterana na adoção dos Ritos pelo Livro de Oração Comum, da Igreja da Inglaterra. Hoje, variações que não afetem o essencial, são adotadas nos LOC's de cada uma das 38 Províncias Anglicanas, e em Ritos Alternativos ou Opcionais, devidamente autorizados pelo Bispo de cada Diocese, único detentor do “jus liturgicum” (autoridade para adotar liturgias).
Os Sacramentos têm como fundamento a própria Encarnação de Cristo, que dignifica a Natureza, e o uso dos seus componentes para o bem estar material e espiritual. Para os Anglicanos as Escrituras e os Sacramentos alimentam a fé e proclamam a fé. Deve-se, contudo, evitar o formalismo, a banalização ou a superstição (magicismo) no tocante aos Sacramentos, que devem ser celebrados “com ordem e decência” , com solenidade e docência, segundo a Liturgia Oficial da Igreja (como prescrevem os Cânones).
Ao convidarmos parentes, amigos e vizinhos para as celebrações do Batismo e da Ceia, emprestamos aos Sacramentos uma dimensão missionária, evangelizadora, como anúncios solenes das Boas Novas. Pregamos, assim, não pela verborragia , mas pela Liturgia , usada, poderosamente, pelo Espírito Santo.
Não podemos negar a História da Igreja e a herança apostólica, negando os Sacramentos. O equilíbrio entre Pregação e Sacramento como explicitações da Palavra de Deus para o Povo de Deus é uma das mais profundas marcas do Anglicanismo.
Vivamos essa Verdade!
Autor: Dom Robinson Cavalcanti, Bispo Anglicano
Um Sacramento já foi definido como: “Um sinal externo e visível de uma graça interna e espiritual, que se nos concede, instituído pelo próprio Cristo, como meio de recebermos essa graça, e como penhor que nos assegura dela”.
O Sacramento deve ter sido instituído pelo próprio Cristo – conforme relato dos Evangelhos – cujas palavras são repetidas pelos celebrantes, deve conter elementos externos, visíveis, da natureza (água, pão, vinho), e deve concorrer para alimentar os fiéis, que os recebem pela fé, com a graça de Deus. No Catecismo de um dos Livros de Oração Comum (LOC) de uma de nossas Províncias Anglicanas, Graça é entendida como “o favor de Deus para conosco”.
Em nosso Documento Doutrinário Anglicano da época da Reforma Protestante, do século XVI, os “XXXIX Artigos de Religião” , em seu artigo XXV – Dos Sacramentos, lemos a seguinte afirmativa: “Os Sacramentos instituídos por Cristo não são unicamente designações ou indícios da profissão dos Cristãos, mas antes testemunhos certos e firmes, e sinais eficazes da graça, e da boa vontade de Deus para conosco, pelos quais Ele opera invisivelmente em nós, e não só vivifica, mas, também, fortalece e confirma a nossa fé Nele. São dois os Sacramentos instituídos por Cristo nosso Senhor no Evangelho, isto é, o Batismo e a Ceia do Senhor”.
Aquele importante documento nega o status de “sacramento” a outros ritos não instituídos por Cristo, mas sim pela Igreja, ao longo dos séculos, por mais benéficos que sejam: Confirmação, Penitência, Ordens, Matrimônio e Unção dos Enfermos. Faltar-lhe-ia os elementos essenciais para tanto. Posteriormente, passaram a ser denominados no Anglicanismo de “Ritos Sacramentais” , ou de “Sacramentos Menores” . Enquanto os Sacramentos estão na economia da salvação, os ritos sacramentais estariam na economia da santificação.
O Artigo XXVII – Do Batismo, do Documento acima citado, nos ensina que: “O Batismo não é um sinal de profissão e marca de diferença, com que se distinguem os Cristãos dos que o não são, mas também um sinal de regeneração ou Nascimento novo, pelo qual, como por instrumentos, os que recebem o Batismo devidamente, são enxertados na Igreja; as promessas da remissão dos pecados, e da nossa adoção como filhos de Deus pelo Espírito Santo, são visivelmente marcadas e seladas, a fé é confirmada, e a graça aumentada por virtude da oração de Deus. O Batismo das crianças deve conservar-se de qualquer modo na Igreja como sumamente como à instituição de Cristo”.
O Batismo tem sido entendido como “o ato de imergir, infundir ou aspergir, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, sobre o convertido ou criança “filha da promessa”, ou seja, de pais e/ou avós já crentes” . Ambos os batismos, seguindo, na Nova Aliança, a tradição da Primeira Aliança (circuncisão e batismo de prosélitos) na Igreja Primitiva, segundo farta e confiável documentação do período dos Pais Apostólicos (segundo século). O convertido professa a sua fé, e os filhos da promessa ( “para tu e os de tua descendência” ) recebem a semente do Evangelho, que uma vez devidamente regada pela família da carne e pela família da fé, haverá de germinar, como tão bem nos ensina Calvino.
Como a quantidade de água, além de não-essencial, foi diversa nos primórdios do Cristianismo, os Anglicanos não somente batizam adultos e crianças, mas também o fazem por imersão (em água corrente ou não) e por infusão ou aspersão na pia batismal, com o uso das palavras da instituição por nosso Senhor Jesus Cristo. Em todos os casos deve-se preparar as pessoas e chamar a atenção para a importância desse rito de iniciação cristã.
O segundo Sacramento é tratado no Artigo XXVIII – Da Ceia do Senhor: “A Ceia do Senhor não é só um sinal de mútuo amor que os cristãos devem ter uns para com os outros; mas antes é um Sacramento da nossa Redenção pela morte de Cristo, de sorte que para os que devida e dignamente, e com fé o recebem, o pão que partimos é a participação do Corpo de Cristo; e de igual modo o Cálice de bênção é uma participação do Sangue de Cristo” . Nossa posição rejeita a doutrina da Transubstanciação da Igreja Romana e da Consubstanciação da Igreja Luterana, bem como o do mero memorial defendido pelos Anabatistas. Afirma esse Artigo: “O Corpo de Cristo é dado, tomado, e comido na Ceia, somente dum modo celeste e espiritual. E o meio pelo qual o Corpo de Cristo é recebido e comido na Ceia é a Fé” . Daí os Anglicanos afirmarem, mas não definirem racionalmente (pois sacramento é mistério, apreendido pela fé) o sentido da “Presença Real” de Cristo, que é espiritual e não material, estando presente não nos elementos, isoladamente, mas no Sacramento: rito, palavras solenes, elementos, cristãos com fé.
Os Artigos de Religião afirmam a necessidade de, em obediência ao que está prescrito pelas Escrituras, celebrarmos a Ceia com ambos os elementos: o pão e o vinho, nem só o pão (Igreja de Roma), nem pão e suco de uva (prática que apareceu na Igreja Metodista dos EUA no século XIX), são condenados os que participam indignamente ou sem fé, e afirma-se que a fé e o caráter do celebrante não afetam o Sacramento devidamente administrado e devidamente recebido.
Como afirmação do Corpo Místico de Cristo, e de que nós, os Anglicanos, somos uma parcela provisória e reformada desse Corpo, praticamos a chamada “Ceia Aberta” (a Mesa é do Senhor e não da Igreja Anglicana) a todas as pessoas batizadas, que confessem Cristo como Senhor e Salvador e estejam em paz com Deus e em comunhão com as suas igrejas.
A Ceia do Senhor, ou Eucaristia ( “Ação de Graças” ) era celebrada dominicalmente pela Igreja dos primeiros séculos, como afirmação da redenção e da ressurreição. Fórmulas e ritos foram sendo elaborados, sendo a mais antiga (adotada pela Igreja Ortodoxa Siriana) atribuída a Tiago, irmão do Senhor. As tradições da Igreja Celta e da Igreja Romana foram profundamente afetadas pela Reforma Luterana na adoção dos Ritos pelo Livro de Oração Comum, da Igreja da Inglaterra. Hoje, variações que não afetem o essencial, são adotadas nos LOC's de cada uma das 38 Províncias Anglicanas, e em Ritos Alternativos ou Opcionais, devidamente autorizados pelo Bispo de cada Diocese, único detentor do “jus liturgicum” (autoridade para adotar liturgias).
Os Sacramentos têm como fundamento a própria Encarnação de Cristo, que dignifica a Natureza, e o uso dos seus componentes para o bem estar material e espiritual. Para os Anglicanos as Escrituras e os Sacramentos alimentam a fé e proclamam a fé. Deve-se, contudo, evitar o formalismo, a banalização ou a superstição (magicismo) no tocante aos Sacramentos, que devem ser celebrados “com ordem e decência” , com solenidade e docência, segundo a Liturgia Oficial da Igreja (como prescrevem os Cânones).
Ao convidarmos parentes, amigos e vizinhos para as celebrações do Batismo e da Ceia, emprestamos aos Sacramentos uma dimensão missionária, evangelizadora, como anúncios solenes das Boas Novas. Pregamos, assim, não pela verborragia , mas pela Liturgia , usada, poderosamente, pelo Espírito Santo.
Não podemos negar a História da Igreja e a herança apostólica, negando os Sacramentos. O equilíbrio entre Pregação e Sacramento como explicitações da Palavra de Deus para o Povo de Deus é uma das mais profundas marcas do Anglicanismo.
Vivamos essa Verdade!
Autor: Dom Robinson Cavalcanti, Bispo Anglicano
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Limites: Psicologia, Igreja e Espiritualidade
Por Karl Kepler
Dedico este texto para pessoas que, como eu, cresceram e se criaram no meio evangélico e hoje têm dúvidas sinceras sobre o que aprenderam nesse meio. Também peço licença para me expressar de modo mais existencial: falo as coisas como a gente as sente, não necessariamente como elas são em si.
Muitas pessoas que conheço estão num dilema envolvendo sua fé; a contraparte pode ser a psicologia, ou a ciência, ou o dilema igreja-sociedade: cresceram ou se converteram há tempo numa igreja evangélica, aprenderam sobre Jesus Cristo, sobre a Bíblia, oração, participaram de grupos de jovens, etc. mas alguma hora chegaram a um ponto em que toda essa vida de igreja lhes pareceu restritiva demais, e muito limitada em termos de perspectiva. Esse ponto de confronto pode ter sido a Universidade, o curso de psicologia (ou filosofia, ou ciências sociais, história ou afins), ou o contato com "outra turma". De repente "o mundo" que a gente tanto temia como um poderoso inimigo da nossa salvação, se mostra cheio de boa gente, de conhecimentos verdadeiros, capaz de resolver problemas que lá na Igreja não foram sequer levados em consideração.
Para não ser injusto com a igreja, devo rapidamente reconhecer que para a maioria das pessoas que a experimentam, ela significou - através de Jesus Cristo - a libertação de um modo de vida muito pior ("o mundo"), corrompido e corruptor sem igual, onde tudo o que é valorizado é vazio: poder, imagem, sexo, posses e prestígio. Para quem se afundou nessa sociedade, a igreja trouxe a libertação pela verdade que é Jesus Cristo, o evangelho. Mas para quem desde pequeno já tem sido protegido pela igreja dessa sociedade, ou para aquele que, junto com Jesus Cristo, acabou aceitando uma porção de "verdades" falsas e orientações neurotizantes, para esses até mesmo a fantástica salvação em Cristo pode ser motivo de crises e muitas dúvidas.
1. A primeira crise: os limites da igreja e dos pastores
À medida que a gente vai conhecendo mais a realidade de fora, vamos perdendo o medo, e percebemos que o mundo não é aquele "bicho-papão" que nos pintaram. Pelo contrário: é a igreja que acaba mudando de cara, quando percebemos que várias proibições e cobranças eram ignorantes ou absurdas. Vemos que a preocupação obsessiva com o comportamento sexual é descabida, aquele jeito "domingueiro" de se vestir e falar talvez pareça ridículo, as regras sobre controlar o modo de falar, sobre não beber ou não fumar idem; descobrimos que dançar é uma coisa muito boa, e o fim-de-semana pode ser aproveitado em muitas outras coisas interessantes, especialmente se temos uma boa turma de amigos. Então a gente entra numa primeira crise: a vida na igreja evangélica se parece com manter um cavalo dentro de um cercadinho de 4m x 4m: tem muita coisa que não cabe naquela experiência.
Fora da igreja também não é tudo um mar de rosas; na igreja o pastor nos cobrava na pregação de todos os domingos, e muitas vezes nossa consciência faz eco das cobranças. A tentação é grande de achar que "eu não dou mesmo pra coisa" e desistir. Além disso, nossa alma parece perceber que não conseguimos apagar da nossa existência temas extremamente sérios: a existência de Deus, o plano de salvação através da morte de Cristo, a autoridade da Bíblia, etc., o que aumenta um pouco mais a dose de culpa ou o medo da inadequação. Junte isso com a argumentação intelectual e de outras crenças que nos vêm, coisas como: criação ou evolução, os milagres da Bíblia, o contato com esoterismo, mapas astrais, budismo, e por outro lado a dura realidade econômica, política e social brasileira: não é de admirar que os irmãos prefiram ficar naquele cercadinho: a vida é extremamente complexa; temos temas de sobra com que se ocupar ou se desculpar.
Nesse momento, geralmente acabamos por tomar um outro rumo na vida, alguns rompendo radicalmente e saindo da igreja, outros (por causa da seriedade dos temas sobre Deus), ficando com medo de romper ou, ainda percebendo na igreja coisas pertinentes, tentando como que viver duas vidas (isso nem é tão difícil, porque nossas igrejas praticamente só se ocupam do domingo). Possivelmente é a hora em que, quem tiver oportunidade, envereda por uma psicoterapia, de certa forma "trocando de guru": em lugar do pastor da igreja, um "processo de auto-conhecimento", ou uma turma de amigos, ou mesmo um psicoterapeuta mais diretivo. Nessa nova forma "mais consciente" de viver dá para ficar muitos anos. A sensação é de antecipação da liberdade, um entusiasmo pelo novo (a "descoberta da sociedade humana"), uma vez que sabemos muito bem o que não queremos, o velho (a "sociedade evangélica").
2. A segunda crise: Os limites da psicologia
Livre das pressões da igreja muitos arriscam uma separação, uma sexualidade mais plural, uma nova união, um novo curso ou empreendimento, enfim, muita coisa nova para experimentar. A terapia ou a faculdade abrem novos horizontes; os novos amigos substituem os velhos irmãos com vantagens (dá para ser mais autêntico, não precisamos ficar tentando nos controlar em nossa expressão), e a gente vira em maior ou menor grau um "ex-crente". Alguns sepultaram sua fé e puseram uma pedra nisso tudo; outros se tornaram "cristãos bem mais abertos", não conseguindo mais se encaixar em igreja nenhuma, não tendo a menor vontade de ler a Bíblia, mas não abrindo mão de crer no Deus que lá na igreja e na Bíblia conheceram. Ficam algum tempo à procura de alguma igreja alternativa, que na maioria das vezes não encontram.
Mas aí esse "novo estilo de vida" vai deixando de ser novidade. O novo casamento ganha ares de velho, a psicoterapia fica bem menos produtiva, o auto-conhecimento já virou rotina e não gera mais novidade, os novos amigos também têm seus grandes defeitos, o curso universitário foi terminado (ou não) e a gente fica desorientado em meio a tantas linhas divergentes, e lá pelas tantas a gente se percebe com um sentimento muito parecido com o que tinha dentro da igreja. O cavalo saiu do cercadinho de 4 x 4 para um terreno de 20 x 20; tem bem mais espaço, mas lá também tem um limite intransponível. Com uma diferença: o cercadinho ainda existe, mas você não quer voltar para lá, porque já o conhece muito bem. Às vezes a gente tenta "aparecer" lá na igreja, mas o convívio com aquelas mesmas pessoas com a mesma visão curta, as mesmas cobranças do pastor (talvez apenas um pouco modernizadas), as mesmas cobranças dos irmãos... não dá mesmo para retornar. A saída do cercadinho foi algo positivo, uma conquista da qual não queremos abrir mão. A vida humana na sociedade é real, e negá-la não é a saída. Só que ela também tem seus grandes problemas que mesmo uma boa psicoterapia não consegue resolver. E a perspectiva de ficar pagando uma outra pessoa para acompanhar e esclarecer minha caminhada por anos a fio é desanimadora: a vida não pode ser tão complexa assim, que não dê para um ser humano mediano vivê-la. Onde haverá uma saída?
3. A espiritualidade
Talvez seja mesmo função divina essa dos problemas fazerem a gente se lembrar de Deus. Começamos a buscar a "saída de cima". Quem já está muito longe de Deus pode tender a seguir outras espiritualidades, misticismos, budismos, esoterismos e tais (e acaba se afundando cada vez mais). Quem busca algum tipo de volta a Deus às vezes pode experimentar um estilo de igreja diferente: se era evangélico tradicional, pode se atrair pelo pentecostalismo; se era pentecostal, pode se interessar pelas igrejas mais conservadoras (essa mudança de estilo pode garantir talvez mais um ano de "achar que está no caminho certo"). E sempre tem as "igrejas da moda", que seguram por uns quatro anos um grande rebanho de insatisfeitos (com as igrejas que conheceram) porém temerosos (de romper com a instituição "igreja").
Falar dos limites da espiritualidade me é mais difícil; não há como não ser pessoal, e para mim o caminho da espiritualidade ainda é novo. Por espiritualidade aqui quero dizer um relacionamento pessoal, sem intermediário, com o Deus vivo que inspirou a Bíblia e que tem interesse (amor) em influenciar nossa vida; um Deus manso e humilde de coração, que dá descanso para nossa alma, mas que também nos deixa passar por horríveis tribulações e sofrimentos; que nos ama muito, mas que prometeu deixar a revelação escancarada de seu amor para o futuro (mas espera que acreditemos nele agora); que atende orações, mas que não nos dá tudo o que pedimos.
É impressionante o quanto a nossa vida transformada por esse contato com Deus se aproxima daquelas coisas que os pastores da igreja tanto cobram, só que agora não nos sentimos cobrados: sentimo-nos convidados, seduzidos. Depois de uns quinze anos "na geladeira", começou a me dar vontade de ler a Bíblia. E eu já estava há tempo longe daquelas igrejas que ficam cobrando a gente fazer "hora tranqüila" de Bíblia e oração (quando adolescente, dentro do cercadinho, fiz muita "hora tranqüila" e aquilo me fez mal), ou ficam cobrando a gente "se engajar no trabalho da igreja", coisa que também já fiz bastante. Minha alma agora tem sede ( o filho pródigo diria "fome") do Deus vivo. Então a espiritualidade, a busca de uma amizade pessoal com Deus, é um caminho que está me satisfazendo. Mas, repito, é por fora muito parecido com o estilo de vida que as igrejas tentam forjar em seus membros, mas por dentro é completamente diferente; espero um dia conseguir explicar bem essa diferença.
O fato é que a busca de uma igreja condizente com a espiritualidade é uma tarefa infeliz; buscando a orientação de Deus, perambulei por dois anos em igrejas diferentes, e mesmo hoje às vezes não sinto que essa busca tenha terminado. Sei de pessoas queridas que se reencontraram com Deus, mas não estão conseguindo encontrar uma igreja onde se sintam participantes. Que tristeza! As igrejas estão muito mais para "comunidade neurotizante" do que para "comunidade terapêutica". E ao mesmo tempo, muitas pessoas que nela estão parecem se sentir perfeitamente integradas (não cabe aqui avaliar se é de modo alienado, enganado, legítimo, etc.) Tenho a impressão de que -- via espiritualidade -- a necessidade de igreja pode se reduzir para necessidade de um pequeno grupo, enriquecido com contatos extremamente diversificados, tipo Internet, telefone, congressos, workshops, mas um grupo de irmãos em Cristo. E de novo, para outras coisas, a igreja local em que cada um congrega poderá ser necessária. Ou seja, acho que muitos terão de conviver com essa insatisfação pelo resto da vida nesta terra.
Esse deve ser um dos limites da espiritualidade: Deus não nos "desencarna"; Jesus optou por não chamar as doze legiões de anjos para ajudá-lo. Por mais espiritualidade que cultivemos, é vontade de Deus que continuemos extremamente humanos, em relacionamentos humanos, na sociedade humana e contando com os recursos humanos. OK, Ele às vezes decide fazer milagres, às vezes atendendo a nosso pedido, mas está claro que por ora "nossa vida está oculta com Cristo no céu". Ou seja, os limites da espiritualidade devem ser os limites da vida aqui na terra: pecado, dor, injustiça, doença e todas aquelas coisas que "não podem nos separar do amor de Deus" continuam existindo. Imagino que tenhamos então todos os limites de uma peregrinação numa terra estranha. E me parece ser uma caminhada um pouco mais solitária.
Daí que os problemas da alma, que a igreja e a psicoterapia procuravam resolver (e conseguiam só até certo ponto), podem muito bem continuar conosco, mas dentro de uma nova visão, uma nova companhia: como instrumentos para a glória do Deus vivo, ou como meios de receber e transmitir a graça de Deus (tal qual o espinho na carne de Paulo), aquela, "que é melhor que a vida". Isso pode valer para igreja, casamento, vida sexual, turma de amigos, participação política e social, etc.
Então de certa forma a espiritualidade com Deus resgata algumas coisas boas que existiam no "cercadinho da igreja", como a existência de Deus, a salvação em Cristo, a companhia do Espírito, e a Bíblia como palavra de Deus. E abre um novo caminho para a necessária vivência grupal, de termos pelo menos uma ou duas pessoas próximas que sentem e crêem mais ou menos do mesmo jeito ("onde dois ou três"...). Mas ela também preserva (ou, dá a possibilidade de preservar) aquele bom lado humano e social que a igreja tanto podava, o "coração de carne", de modo que os exemplos de fé a serem seguidos agora não são mais "pastores perfeitos", líderes vitoriosos ou pregadores gritando do alto dos púlpitos. Meus novos modelos são pessoas muito humanas, tão boas e tão más quanto eu, que estão tentando andar no caminho de Deus (como também eu estou). Perdemos a "inocência" de esperar a perfeição de nós mesmos. Muitos, tal como Paulo em Filipenses, cresceram na igreja de forma quase irrepreensível, praticamente não cometendo nenhum daqueles pecados que os irmãos tanto reprovam (especialmente adultério), mas já perceberam que isso não vale porcaria nenhuma ("esterco"), que eles são tão pecadores quanto os que adulteraram, e assim "ganharam a Cristo". A espiritualidade - o relacionamento com Cristo - nos liberta de cobranças, de leis e também de modismos mundanos, ao mesmo tempo que nos mantém bastante "presos", pelo afeto, a Deus. Começam a fazer sentido textos como "misericórdia quero, e não sacrifícios", "o fruto do Espírito é... longanimidade, mansidão". E a convivência do joio com o trigo dentro de nós e por toda a nossa vida nesta terra é finalmente aceita, junto com a salvação dada de graça por aquele que ama pecadores. Esse relacionamento reatado, com um Deus que não está mais insatisfeito comigo, dá uma paz e uma saúde que a maioria das igrejas não permite acontecer, e que nenhuma psicoterapia por si só poderia alcançar.
Karl Kepler, pastor evangélico e psicólogo, é também vice-presidente de publicações do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos
Dedico este texto para pessoas que, como eu, cresceram e se criaram no meio evangélico e hoje têm dúvidas sinceras sobre o que aprenderam nesse meio. Também peço licença para me expressar de modo mais existencial: falo as coisas como a gente as sente, não necessariamente como elas são em si.
Muitas pessoas que conheço estão num dilema envolvendo sua fé; a contraparte pode ser a psicologia, ou a ciência, ou o dilema igreja-sociedade: cresceram ou se converteram há tempo numa igreja evangélica, aprenderam sobre Jesus Cristo, sobre a Bíblia, oração, participaram de grupos de jovens, etc. mas alguma hora chegaram a um ponto em que toda essa vida de igreja lhes pareceu restritiva demais, e muito limitada em termos de perspectiva. Esse ponto de confronto pode ter sido a Universidade, o curso de psicologia (ou filosofia, ou ciências sociais, história ou afins), ou o contato com "outra turma". De repente "o mundo" que a gente tanto temia como um poderoso inimigo da nossa salvação, se mostra cheio de boa gente, de conhecimentos verdadeiros, capaz de resolver problemas que lá na Igreja não foram sequer levados em consideração.
Para não ser injusto com a igreja, devo rapidamente reconhecer que para a maioria das pessoas que a experimentam, ela significou - através de Jesus Cristo - a libertação de um modo de vida muito pior ("o mundo"), corrompido e corruptor sem igual, onde tudo o que é valorizado é vazio: poder, imagem, sexo, posses e prestígio. Para quem se afundou nessa sociedade, a igreja trouxe a libertação pela verdade que é Jesus Cristo, o evangelho. Mas para quem desde pequeno já tem sido protegido pela igreja dessa sociedade, ou para aquele que, junto com Jesus Cristo, acabou aceitando uma porção de "verdades" falsas e orientações neurotizantes, para esses até mesmo a fantástica salvação em Cristo pode ser motivo de crises e muitas dúvidas.
1. A primeira crise: os limites da igreja e dos pastores
À medida que a gente vai conhecendo mais a realidade de fora, vamos perdendo o medo, e percebemos que o mundo não é aquele "bicho-papão" que nos pintaram. Pelo contrário: é a igreja que acaba mudando de cara, quando percebemos que várias proibições e cobranças eram ignorantes ou absurdas. Vemos que a preocupação obsessiva com o comportamento sexual é descabida, aquele jeito "domingueiro" de se vestir e falar talvez pareça ridículo, as regras sobre controlar o modo de falar, sobre não beber ou não fumar idem; descobrimos que dançar é uma coisa muito boa, e o fim-de-semana pode ser aproveitado em muitas outras coisas interessantes, especialmente se temos uma boa turma de amigos. Então a gente entra numa primeira crise: a vida na igreja evangélica se parece com manter um cavalo dentro de um cercadinho de 4m x 4m: tem muita coisa que não cabe naquela experiência.
Fora da igreja também não é tudo um mar de rosas; na igreja o pastor nos cobrava na pregação de todos os domingos, e muitas vezes nossa consciência faz eco das cobranças. A tentação é grande de achar que "eu não dou mesmo pra coisa" e desistir. Além disso, nossa alma parece perceber que não conseguimos apagar da nossa existência temas extremamente sérios: a existência de Deus, o plano de salvação através da morte de Cristo, a autoridade da Bíblia, etc., o que aumenta um pouco mais a dose de culpa ou o medo da inadequação. Junte isso com a argumentação intelectual e de outras crenças que nos vêm, coisas como: criação ou evolução, os milagres da Bíblia, o contato com esoterismo, mapas astrais, budismo, e por outro lado a dura realidade econômica, política e social brasileira: não é de admirar que os irmãos prefiram ficar naquele cercadinho: a vida é extremamente complexa; temos temas de sobra com que se ocupar ou se desculpar.
Nesse momento, geralmente acabamos por tomar um outro rumo na vida, alguns rompendo radicalmente e saindo da igreja, outros (por causa da seriedade dos temas sobre Deus), ficando com medo de romper ou, ainda percebendo na igreja coisas pertinentes, tentando como que viver duas vidas (isso nem é tão difícil, porque nossas igrejas praticamente só se ocupam do domingo). Possivelmente é a hora em que, quem tiver oportunidade, envereda por uma psicoterapia, de certa forma "trocando de guru": em lugar do pastor da igreja, um "processo de auto-conhecimento", ou uma turma de amigos, ou mesmo um psicoterapeuta mais diretivo. Nessa nova forma "mais consciente" de viver dá para ficar muitos anos. A sensação é de antecipação da liberdade, um entusiasmo pelo novo (a "descoberta da sociedade humana"), uma vez que sabemos muito bem o que não queremos, o velho (a "sociedade evangélica").
2. A segunda crise: Os limites da psicologia
Livre das pressões da igreja muitos arriscam uma separação, uma sexualidade mais plural, uma nova união, um novo curso ou empreendimento, enfim, muita coisa nova para experimentar. A terapia ou a faculdade abrem novos horizontes; os novos amigos substituem os velhos irmãos com vantagens (dá para ser mais autêntico, não precisamos ficar tentando nos controlar em nossa expressão), e a gente vira em maior ou menor grau um "ex-crente". Alguns sepultaram sua fé e puseram uma pedra nisso tudo; outros se tornaram "cristãos bem mais abertos", não conseguindo mais se encaixar em igreja nenhuma, não tendo a menor vontade de ler a Bíblia, mas não abrindo mão de crer no Deus que lá na igreja e na Bíblia conheceram. Ficam algum tempo à procura de alguma igreja alternativa, que na maioria das vezes não encontram.
Mas aí esse "novo estilo de vida" vai deixando de ser novidade. O novo casamento ganha ares de velho, a psicoterapia fica bem menos produtiva, o auto-conhecimento já virou rotina e não gera mais novidade, os novos amigos também têm seus grandes defeitos, o curso universitário foi terminado (ou não) e a gente fica desorientado em meio a tantas linhas divergentes, e lá pelas tantas a gente se percebe com um sentimento muito parecido com o que tinha dentro da igreja. O cavalo saiu do cercadinho de 4 x 4 para um terreno de 20 x 20; tem bem mais espaço, mas lá também tem um limite intransponível. Com uma diferença: o cercadinho ainda existe, mas você não quer voltar para lá, porque já o conhece muito bem. Às vezes a gente tenta "aparecer" lá na igreja, mas o convívio com aquelas mesmas pessoas com a mesma visão curta, as mesmas cobranças do pastor (talvez apenas um pouco modernizadas), as mesmas cobranças dos irmãos... não dá mesmo para retornar. A saída do cercadinho foi algo positivo, uma conquista da qual não queremos abrir mão. A vida humana na sociedade é real, e negá-la não é a saída. Só que ela também tem seus grandes problemas que mesmo uma boa psicoterapia não consegue resolver. E a perspectiva de ficar pagando uma outra pessoa para acompanhar e esclarecer minha caminhada por anos a fio é desanimadora: a vida não pode ser tão complexa assim, que não dê para um ser humano mediano vivê-la. Onde haverá uma saída?
3. A espiritualidade
Talvez seja mesmo função divina essa dos problemas fazerem a gente se lembrar de Deus. Começamos a buscar a "saída de cima". Quem já está muito longe de Deus pode tender a seguir outras espiritualidades, misticismos, budismos, esoterismos e tais (e acaba se afundando cada vez mais). Quem busca algum tipo de volta a Deus às vezes pode experimentar um estilo de igreja diferente: se era evangélico tradicional, pode se atrair pelo pentecostalismo; se era pentecostal, pode se interessar pelas igrejas mais conservadoras (essa mudança de estilo pode garantir talvez mais um ano de "achar que está no caminho certo"). E sempre tem as "igrejas da moda", que seguram por uns quatro anos um grande rebanho de insatisfeitos (com as igrejas que conheceram) porém temerosos (de romper com a instituição "igreja").
Falar dos limites da espiritualidade me é mais difícil; não há como não ser pessoal, e para mim o caminho da espiritualidade ainda é novo. Por espiritualidade aqui quero dizer um relacionamento pessoal, sem intermediário, com o Deus vivo que inspirou a Bíblia e que tem interesse (amor) em influenciar nossa vida; um Deus manso e humilde de coração, que dá descanso para nossa alma, mas que também nos deixa passar por horríveis tribulações e sofrimentos; que nos ama muito, mas que prometeu deixar a revelação escancarada de seu amor para o futuro (mas espera que acreditemos nele agora); que atende orações, mas que não nos dá tudo o que pedimos.
É impressionante o quanto a nossa vida transformada por esse contato com Deus se aproxima daquelas coisas que os pastores da igreja tanto cobram, só que agora não nos sentimos cobrados: sentimo-nos convidados, seduzidos. Depois de uns quinze anos "na geladeira", começou a me dar vontade de ler a Bíblia. E eu já estava há tempo longe daquelas igrejas que ficam cobrando a gente fazer "hora tranqüila" de Bíblia e oração (quando adolescente, dentro do cercadinho, fiz muita "hora tranqüila" e aquilo me fez mal), ou ficam cobrando a gente "se engajar no trabalho da igreja", coisa que também já fiz bastante. Minha alma agora tem sede ( o filho pródigo diria "fome") do Deus vivo. Então a espiritualidade, a busca de uma amizade pessoal com Deus, é um caminho que está me satisfazendo. Mas, repito, é por fora muito parecido com o estilo de vida que as igrejas tentam forjar em seus membros, mas por dentro é completamente diferente; espero um dia conseguir explicar bem essa diferença.
O fato é que a busca de uma igreja condizente com a espiritualidade é uma tarefa infeliz; buscando a orientação de Deus, perambulei por dois anos em igrejas diferentes, e mesmo hoje às vezes não sinto que essa busca tenha terminado. Sei de pessoas queridas que se reencontraram com Deus, mas não estão conseguindo encontrar uma igreja onde se sintam participantes. Que tristeza! As igrejas estão muito mais para "comunidade neurotizante" do que para "comunidade terapêutica". E ao mesmo tempo, muitas pessoas que nela estão parecem se sentir perfeitamente integradas (não cabe aqui avaliar se é de modo alienado, enganado, legítimo, etc.) Tenho a impressão de que -- via espiritualidade -- a necessidade de igreja pode se reduzir para necessidade de um pequeno grupo, enriquecido com contatos extremamente diversificados, tipo Internet, telefone, congressos, workshops, mas um grupo de irmãos em Cristo. E de novo, para outras coisas, a igreja local em que cada um congrega poderá ser necessária. Ou seja, acho que muitos terão de conviver com essa insatisfação pelo resto da vida nesta terra.
Esse deve ser um dos limites da espiritualidade: Deus não nos "desencarna"; Jesus optou por não chamar as doze legiões de anjos para ajudá-lo. Por mais espiritualidade que cultivemos, é vontade de Deus que continuemos extremamente humanos, em relacionamentos humanos, na sociedade humana e contando com os recursos humanos. OK, Ele às vezes decide fazer milagres, às vezes atendendo a nosso pedido, mas está claro que por ora "nossa vida está oculta com Cristo no céu". Ou seja, os limites da espiritualidade devem ser os limites da vida aqui na terra: pecado, dor, injustiça, doença e todas aquelas coisas que "não podem nos separar do amor de Deus" continuam existindo. Imagino que tenhamos então todos os limites de uma peregrinação numa terra estranha. E me parece ser uma caminhada um pouco mais solitária.
Daí que os problemas da alma, que a igreja e a psicoterapia procuravam resolver (e conseguiam só até certo ponto), podem muito bem continuar conosco, mas dentro de uma nova visão, uma nova companhia: como instrumentos para a glória do Deus vivo, ou como meios de receber e transmitir a graça de Deus (tal qual o espinho na carne de Paulo), aquela, "que é melhor que a vida". Isso pode valer para igreja, casamento, vida sexual, turma de amigos, participação política e social, etc.
Então de certa forma a espiritualidade com Deus resgata algumas coisas boas que existiam no "cercadinho da igreja", como a existência de Deus, a salvação em Cristo, a companhia do Espírito, e a Bíblia como palavra de Deus. E abre um novo caminho para a necessária vivência grupal, de termos pelo menos uma ou duas pessoas próximas que sentem e crêem mais ou menos do mesmo jeito ("onde dois ou três"...). Mas ela também preserva (ou, dá a possibilidade de preservar) aquele bom lado humano e social que a igreja tanto podava, o "coração de carne", de modo que os exemplos de fé a serem seguidos agora não são mais "pastores perfeitos", líderes vitoriosos ou pregadores gritando do alto dos púlpitos. Meus novos modelos são pessoas muito humanas, tão boas e tão más quanto eu, que estão tentando andar no caminho de Deus (como também eu estou). Perdemos a "inocência" de esperar a perfeição de nós mesmos. Muitos, tal como Paulo em Filipenses, cresceram na igreja de forma quase irrepreensível, praticamente não cometendo nenhum daqueles pecados que os irmãos tanto reprovam (especialmente adultério), mas já perceberam que isso não vale porcaria nenhuma ("esterco"), que eles são tão pecadores quanto os que adulteraram, e assim "ganharam a Cristo". A espiritualidade - o relacionamento com Cristo - nos liberta de cobranças, de leis e também de modismos mundanos, ao mesmo tempo que nos mantém bastante "presos", pelo afeto, a Deus. Começam a fazer sentido textos como "misericórdia quero, e não sacrifícios", "o fruto do Espírito é... longanimidade, mansidão". E a convivência do joio com o trigo dentro de nós e por toda a nossa vida nesta terra é finalmente aceita, junto com a salvação dada de graça por aquele que ama pecadores. Esse relacionamento reatado, com um Deus que não está mais insatisfeito comigo, dá uma paz e uma saúde que a maioria das igrejas não permite acontecer, e que nenhuma psicoterapia por si só poderia alcançar.
Karl Kepler, pastor evangélico e psicólogo, é também vice-presidente de publicações do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos
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